e a todas as outras Pessoas Sem Abrigo que conheci na noite de sábado
Eu saí de casa com a certeza de que iria participar numa atividade que me ia encher as medidas, quaisquer que fossem os desígnios de fazer ou não a volta.
Levava também a convicção - envergonho-me agora (mesmo, mesmo muito) de o dizer, que se eu fosse fazer a volta, o que me iria custar mais era mesmo o contacto direto com aqueles Sem Abrigo. É para mim triste ter de reconhecer (e aqui publicamente) que tinha receio do cheiro, do cumprimentar, da minha reação**.
Enganei-me redondamente.
A reportagem que vimos, as coisas que o Carlos nos disse, tudo aquilo criou em mim uma expectativa oposta.
Na carrinha, o Manuel e a Júlia*** foram falando connosco, foram-nos dando indicações e conselhos sobre o que iríamos ver e ouvir. De local em local "apresentavam-nos" as pessoas que ali iríamos encontrar antes mesmo de parar a carrinha. Mostravam um bom conhecimento dessas pessoas e isso punha-nos mais à vontade.
As coisas foram-se desenrolando com toda a naturalidade...
Conheci gente e situações absolutamente inesperadas face ao que eu, na minha profunda ignorância, esperava.
O Vasco, bem vestido, barba feita nessa tarde, cabelo cortado recentemente, de discurso fluido, coerente e bem falante, que me contou do seu Natal com as irmãs e as sobrinhas.
O António, doente bipolar, que se aproximou de nós devagar e muito a medo por não reconhecer a carrinha, que nos saudou efusivamente e falou tanto da sua admiração pelos escuteiros.
O Joel, indiano a quem morreu recentemente o filho, e que nos recebeu a chorar na sua morada suja e sem condições.
Tocou-me muito o Ricardo, que na sua casa de cartão estava a consumir e nos avisou disso para não nos aproximarmos e não vermos. Que pediu ao Manuel para voltar - voltar sempre, que ele um dia há-de deixar a rua e as drogas.
Tocaram-me duas pessoas que dormiam quando lá chegámos, mas tinham tido o cuidado de deixar do lado de fora cada um uma garrafa de plástico vazia e o recado:
"Deixe o leite na garrafa se faz favor".
Se faz favor!!!
Quando falávamos com o Joel e com o Mário, aproximou-se um cão doméstico, que fazia as suas necessidades. Alguns de nós fizeram-lhe festas, principalmente o Mário, que parecia encantado com o animal. Um tempo depois, ouviu-se um assobio e apareceu o dono, que olhou para o nosso grupo com desdém. Dissemos boa noite, mas ele arrancou o animal dali com maus modos, sem dizer uma palavra ou voltar a olhar para nós. Chocou-me esta atitude, que nem consigo classificar.
Há pessoas muito ignorantes, muito mal educadas, muito mal formadas...
Comentei com o grupo "há pessoas que nem para terem animais servem", ao que o Mário me respondeu "é porque vocês estão connosco", e tirou-me a fala...
No Saldanha vimos a verdadeira "confusão" de gente que ali acorreu. Mais histórias, mais homens de bem que caíram em desgraça, mais pessoas que se servem da sua condição de sem abrigo para reivindicar coisas (sim, porque obviamente também os há). Pessoas que exigiam roupas - e de marca de preferência, pessoas que recusaram meias (limpas e em ótimo estado) por não trazerem etiqueta. Pessoas bem vestidas que tentavam, enganar os voluntários e levar mais sacos de comida do que aqueles que precisavam ou teriam direito.
As três pessoas que encontrámos deitadas bem juntinhas, e que nos imploraram um cobertor. A quem deixámos o tal cobertor, calças, os sacos das sandes e um pacote de leite. O olhar agradecido quando estendemos o cobertor...
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Podia descrever aqui a minha Noite com uma precisão muito rigorosa...
Conheci várias pessoas que, se me tivesse cruzado com elas noutra
circunstância, nunca diria que eram sem abrigo. Tal era o seu aspeto cuidado, as roupas arranjadas, a forma corretíssima como falavam e as palavras que utilizavam.
Conheci outras em
circunstância degradantes, imundas, ao frio, à fome, sob efeito de
substâncias como álcool ou drogas.
Em praticamente todas vi um ponto comum: a alegria com que nos recebiam, a educação e o respeito com que nos tratavam, a forma afável com que nos tratavam e nos cumprimentavam como se cumprimenta um amigo que recebemos para um café, o olhar agradecido por lhes darmos o muito que temos e a que não estão habituados: respeito, educação, atenção e tratamento igual.
Ao pousar a cabeça para dormir, senti-me inquieta.
Recordei os momentos que vivi horas antes, e percebi o quão tola, fútil e insensível tinha sido nessa manhã. Estava a pensar só em mim... Naquela altura em que eu me aconchegava na minha colchonete que me protegia do chão frio, quando me enrolava no meu saco-cama quentinho, vieram-me à memória o Vasco, o Abdul, o Miguel, o Manuel, o António, o Pedro e todos os outros. Os que me deram a oportunidade de ver a outra realidade, e que nessa altura se estavam a aconchegar no chão frio, que se estavam a tentar tapar com mantas...
Acordei no dia seguinte com a cabeça a doer-me da "ressaca".
Estas coisas moem-me não só o físico mas acima de tudo o espírito.
Mas havia ainda coisas a fazer, e nem deu tempo para pensar bem em tudo o que tinha vivido na noite anterior.
No caminho de regresso a casa é que me "caiu a ficha" sobre tudo o que tinha passado. Apercebi-me de como foram fúteis os meus receios iniciais. Apercebi-me de como é tão natural cumprimentar uma pessoa que não conheço e que está suja e que vive no meio da rua, mas que me recebe calorosamente, me conta a sua vida, me pergunta por mim como se me conhecesse de longa data.
Apercebi-me da profundidade do trabalho da CVP, quando ouvi uma dessas pessoas dizer: "Eu vou esperar pelos X, que dão sopa quente, mas fico aqui ao pé de vocês porque convosco posso falar um bocadinho"
Mas qual cheiro???? Não é nada disso que trouxe desta Noite e que guardo comigo.
Guardo os olhares. Guardo os apertos de mão bem apertadinhos quando nos despedíamos.
Guardo a certeza de que quando disse a cada um "foi um prazer conhecê-lo", estava a dizê-lo do fundo do meu coração.
Guardo a certeza de que nunca mais vou olhar para uma pessoa que mora na rua da mesma forma mais ou menos indiferente como até ontem.
E afinal, é só isto que as Pessoas Sem Abrigo pedem: um pouco da nossa atenção, um agasalho, um pouco de comida se possível. Mas acima de tudo, pedem para serem tratados como PESSOAS.
TODOS OS NOMES PRÓPRIOS MENCIONADOS NESTE POST SÃO FICTÍCIOS
* nomes fictícios
**eu, que sou conhecida e reconhecida por ter um faro infalível e minhoquinhas
*** nomes fictícios dos Voluntários da Comunidade Vida e Paz