Mostrar mensagens com a etiqueta estórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estórias. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Boneca de Sal


Era uma vez uma Boneca de Sal.
Embora fosse de sal, nunca tinha visto o mar. Sempre tinha ouvido falar dele, e sempre sentiu uma enorme vontade de o conhecer. No fundo, achava que o conhecia já, mesmo sem o ver.

Por isso, um dia deixou a sua terra, a sua familia e amigos e pôs-se a caminho em direcção ao mar.
Encontrou lagos, mas sabia que não eram o mar.
Encontrou rios, mas sabia que o seu destino era bem mais vasto.
Depois de percorrer muitos e muitos quilómetros, chegou finalmente ao final da viagem.
Ficou fascinada por aquela imensidão de água a perder-se no infinito. Nunca tinha visto uma coisa assim tão grandiosa.
Mas seria aquilo o mar?

Por isso, perguntou:
- Quem és tu?
Com um sorriso, o mar respondeu:
- Eu sou o Mar.
- Procurei-te por todo o lado. Como sei que falas a verdade?
Retorquiu o mar:
- Entra nas minhas águas e comprova-o tu mesma!
E a Boneca de Sal meteu-se no no mar. Teve medo, nos primeiros passos. Apercebeu-se por fim que deixava de ser a Boneca de Sal, tornando-se Mar. Mas confiou, confiou no que o seu coração sempre lhe disse e entrou.
À medida que avançava nas águas, ia derretendo, até que dela nada ficou.
Mas, antes de se dissolver completamente, exclamou maravilhada:
-Agora sei quem sou!
Ouvi pela primeira vez esta história em Dezembro de 1988, no Parque de Campismo das Azenhas do Mar, acampamento de Natal dos Exploradores Séniores (actuais Pioneiros), contada na noite do Fogo de Conselho pelo Juan Francisco.
O Juan tinha o Dom da Palavra, e prendia-nos a tudo o que dizia. Foi um dos meus primeiros Chefes e sempre foi dos que mais cativou. Ensinou-nos a ouvir, a falar, a abrir o coração aos mais pequenos pormenores de cada história, de cada parábola.
Naquela noite, em que a tradicional fogueira ao redor da qual costumávamos sentar-nos a celebrar o fim de mais um dia ou actividade fora substituída pela lareira de chão da sala de convívio do Parque, sentámo-nos a ouvir em silêncio a história daquela boneca que tinha procurado o mar sem saber bem porquê, e descobriu que afinal só seria ela própria se fosse ele, se fosse mar, se se deixasse transformar em algo maior.
Nunca mais a esqueci.
Interrogo-me muitas vezes se teria a coragem da boneca. Se a tenho em mim.
Por vezes acho que sim, pois costumo entregar-me a fundo em tudo aquilo em que me meto. Outras alturas acho que não, acho que estou a perder essa coragem, esse espírito de entrega. São fases, espero.
Por instinto a Boneca entrou, confiou. Aquilo não seria a sua morte, mas sim o começo de uma nova vida. Ali era o seu mundo, a sua casa.