Comecei a trabalhar aos 18 anos.
Era num atendimento telefónico, trabalhava das 8h00 às 12h00 e ganhava bem para o tempo que ali estava. Não tinha tempo para respirar, tinha as chamadas cronometradas, tinha de sorrir sempre (sim, o sorriso ouve-se ao telefone, não sabiam? Essa ficou-me desde há muitos anos, e continua a ser verdade), tinha de pedir autorização para ir à casa de banho, tinha 10 minutos a meio da manhã para comer qualquer coisa e o telefone não podia tocar mais de 2 vezes até ser atendido. Tudo cronometrado ao segundo, e não podia falhar nenhum, ou era descontado no vencimento.
Ao longo de 6 anos fiz o mesmo atendimento telefónico, em várias empresas, com vários horários (entretanto passei a tempo inteiro), mas sempre com as mesmas regras rigorosas de horário a cumprir. Entende-se até certo ponto – se é um atendimento telefónico, há clientes à espera de serem atendidos, e dentro daquelas horas de funcionamento. (flexi-quê?)
Quando uns anos depois chego a uma outra empresa onde me disseram que o horário de trabalho era das 9h30 às 18h30, com hora e meia de almoço, mas que esses horários eram flexíveis, desde que deixasse as minhas tarefas todas feitas diariamente. Deram-me a chave da porta e pouco mais disseram. Aprendi depressa que precisava da chave se chegasse às 9h30 – era a única. Aprendi na mesma semana que a hora e meia de almoço não era usada por ninguém – almoçavam todos no café do prédio onde a empresa funcionava, para não perderem tempo, e a ninguém passava pela cabeça aproveitar esse tempo deles/nosso para passear na avenida (5 de Outubro em Lisboa, neste caso), ir às compras, ver montras, etc. Custou-me um bocadinho mais perceber para que raio queriam eles esse tempo, se ninguém começava a produzir nada antes das 16h. Pois, essa era a hora de ponta ali. Começava então o expediente, que, contado para fazer as 7h30 de trabalho, nunca acabava antes das 19-20-21-22h. Eu, que até não tinha nada para fazer (??!??) fora dali, custava-me passar todo o dia sem fazer nada e depois começar a trabalhar pela noite dentro. Mas, como vi que começava a ser posta de parte se não entrasse no esquema, alinhei.
Até que cometi o crime de resolver casar-me. E como resolvi isso com um mês de antecedência, tive pouco tempo para os preparativos, e precisava da minha hora e meia de almoço, e do tempo depois das 18h30 para isso. NUNCA deixei trabalho por fazer, mas comecei a cumprir horário. Um dia adoeci – com direito a baixa médica e tudo, e 3 dias depois recebi uma carta registada a dizer que não me iam renovar o contrato.
Tinha desistido da minha “flexibilidade”.
(continua - 1/4)