Esta tarde, enquanto esperava no carro mal estacionado, por um colega, avisto mais à frente no meio da rua, um senhor já com alguma idade que fazia uns sinais muito vagos aos automóveis que desciam. Fazia sinais como se os quisesse mandar parar. No entanto, nenhum o fez.
Perdida nos pensamentos menos fáceis que estava a ter, fruto da conversa que tinha deixado a meio no PC no escritório, não me apercebi bem ao princípio do que se passava. Via, embora sem ver, o que se derenrolava a apenas uns escassos 30 metros de mim.
Mas chamou-me a atenção aquele homem, bem-parecido, vestido com um fato bem arranjado, boina na cabeça. Andava com alguma dificuldade e por vezes quase se desequilibrava.
Os carros continuavam a passar um após o outro, abrandando quando chegavam perto dele, mas nenhum parou.
O homem virou-se na direcção em que eu estava e começou a subir a rua a custo, lentamente. Fiquei na dúvida se vinha de facto ter comigo ou se era por acaso. Confesso que por momentos preferi que não me visse, preferi passar despercebida, preferi que se dirigisse a outro qualquer. Mas não. Abeirou-se do carro, apoiou-se no cimo da minha porta e dirigiu-se a mim:
- A senhora desculpe, mas onde está o condutor deste carro?
(reconheço agora que cheguei a sentir algum receio deste homem frágil)
- O condutor foi ali aos correios, precisa de alguma coisa? Posso ajudar? Sente-se bem?
- Sabe, é que eu tive uma trombose há alguns meses, e tenho uma certa dificuldade a andar. Vim dar um passeio aqui debaixo dos arcos mas senti-me mal e sentei-me no passeio. Não me sinto com forças para voltar para o Lar. Poderá levar-me ao Lar onde moro?
Senti-me então tremendamente envergonhada por antes ter receado tal pessoa. Tudo o que me disse foi num tom calmo, amável, vindo de um homem de bem que apenas procurava ajuda. Apenas ajuda... Pior fiquei ainda, quando reparei que tinhamos vindo num carro comercial, de apenas 2 lugares. Mas não, aquilo não podia ficar assim. Peguei no telemóvel para ligar ao meu colega a dizer o que ia fazer. Assim que marco o número, ele chegou. Afastei-o dali e contei-lhe o que se passava. Perguntei-lhe se o importava de ir levar o senhor, enquano eu aguardava ali que ele me viesse buscar. O meu amigo J. é uma excelente pessoa, e assim fizémos.
Ao saber que o Lar ficava a apenas 3 ruas dali, eles partiram enquanto eu ia descendo essa mesma rua, para poupar ao J. uma imensa volta de carro para me apanhar.
Enquanto entrava a custo no carro, o gentil senhor agradeceu-me.
Senti-me bem. Senti-me feliz.
Ao descer a rua pensei muito na cena que acabava de acontecer. A mim também me fez bem ajudar um pouquinho alguém naquele momento, neste dia emocionalmente complicado.
Agora que, mais sossegada em casa, volto a visualizar a cena, penso em qual de nós terá sido mais ajudado. Qual de nós os dois saiu a ganhar mais, ficou mais rico. Qual de nós estava mais necessitado, a precisar de sentir outro alguém, outras coisas, outros problemas, despojar-se de si para ser para o outro, com o outro, no outro.
Fui eu, garantidamente.
2 comentários:
não tenhas a menor dúvida que foste tu.
e eu também ...
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