A partida para o Hike.
Tinha grande expectativa, e algum receio também, perante este Hike.
Por um lado, fora-me apresentado como "a grande actividade da IVª" neste Acanuc. Por outro, a grande preparação física que me tinham dito ser necessária e que eu tinha grandes dúvidas se estaria ao meu alcance. Saí de campo portanto sem ter a certeza de que iria conseguir completar o Hike. Na viagem até Torla fui sentada ao lado do HD, que me mostrou o percurso. A serenidade que ele transmite é contagiante, bem como a confiança - sem lamechices, a serenidade e sabedoria que dele emanam... Saí daquele autocarro sem certezas, mas com uma vontade ainda maior de dar o meu máximo (de esforço físico, entenda-se, porque o outro está sempre presente).
O ES foi connosco até Ordesa, e fizémos um pequeno briefing.
Eu sabia, porque o HD assim mo tinha dito, que as primeiras duas horas iriam ser muito duras.
Sempre a subir a pique, sempre num ritmo que não deixasse ninguém para trás mas que não atrasasse os planos.
Dividimos os Dirigentes entre cada 6/7 Caminheiros, e eu era o número 5.
Quando começámos a subir, senti muitas dificuldades por causa dos bastões, com que nunca tinha andado. Essa atrapalhação, juntamente com um descontrolo da respiração, juntamente com o facto de os Camis à minha frente terem uma preparação física muito superior à minha, fizeram-me desesperar. Ainda não tinham decorrido os primeiros 20 minutos de subida, já eu estava prestes a desabar.
Sim, nesses 20 minutos passou-me tudo pela cabeça.
As forças não sei onde as fui buscar. Levei várias vezes a mão ao walkie-talkie que trazia comigo, e só pensava em chamar o HD e dizer-lhe que ficava por ali. Na minha cabeça ecoavam as palavras desistir, desistir, desistir.
Até que aconteceram duas coisas que foram determinantes para mim.
Primeiro, a imagem do ES. Era por ele que eu estava ali. Eu estava naquele Hike porque ele, que tanto esforço, empenho, trabalho e dedicação deu de si ao longo do último ano, tivera de desistir por causa do seu entorse. Por ele, eu não podia desistir... Seguidamente, oiço o HD a chamar-me, e a pedir-me que trocasse de posição com outro Dirigente e fosse para junto das minhas Caminheiras.
Eu não podia desistir...
As duas horas chegaram ao fim, e a recompensa foi de cortar a respiração. A vista do miradouro onde almoçámos e recuperámos forças é qualquer coisa de magnífico, e pela primeira vez tomei contacto com a grandiosidade e a beleza que me iriam acompanhar nos 2 dias seguintes.
O dia foi mais ou menos complicado a espaços, até que já perto do final do dia chegámos ao refúgio de Goriz.
Este refúgio é um local à parte.
Existe uma zona vasta onde os montanheiros podem montar as suas tendas, 2 contentores com casas de banho e duches, uma zona onde o helicóptero aterra (e passou o dia em viagens de abastecimento), e o edifício do Refúgio propriamente dito. Quando lá entrei (fomos beber um chá), veio-me à memória os meus anos de Pioneira e a nossa ida ao Mullacén, na Sierra Nevada.
A vista de Goriz é indescritível, não me canso de o dizer.
Montámos campo, anoiteceu, jantámos. Fazia-se tarde e pouco mais dava para fazer. Uma conversa mais séria com uma das Tribos, e tudo na cama.
Goriz tinha um céu estrelado magnífico*. A ideia que me veio à cabeça era a de um ninho. Estávamos ali, no alto do monte, mas rodeados de montes ainda mais altos que nós. Por cima das nossas cabeças, um céu estrelado magnífico, amplo, azul-escuro e muito brilhante. Um ninho, senti-me num ninho. O meu ninho de águia...Tive muita pena de não termos conseguido fazer a dinâmica dos Valores da Montanha. Tinha sido magnífico, e tinha-me sabido muito bem realizar tudo o que era proposto. Mas o adiantado das horas e o cansaço...
No dia seguinte, aqueles que iam de facto subir ao Monte Perdido tinham encontro marcado para as 7h15, hora de saída.
Tinha pensado bem nesta hipótese, mas continuava com dúvidas. Finalmente decidi: se cheguei até aqui, não é opção desistir agora... eu TENHO de subir.
Muito mais leve do que no dia anterior - na mochila apenas uma bolsa de água e o impermeável, foi no entanto a máquina fotográfica que me apoquentou. O trilho é perigoso, é necessário tomar muita atenção (nem me lembrei das vertigens), há muitas rochas a subir com a ajuda das mãos, dos bastões, de tudo, e preocupar-me com a máquina foi um esforço acrescido muito grande.
Uma vez mais, os primeiros 20 minutos foram desesperantes. Mas depois de os ultrapassar, concluí que precisava apenas de ganhar embalagem. De habituar o corpo ao esforço contínuo da subida. Foi também nesta parte que me coube transportar a Arca da Aliança.
Esta Arca transportava as intenções de cada participante no Acanuc, que o Clã se tinha comprometido a levar ao Monte Perdido, rezando por elas. Transportava também uma hóstia consagrada. A ideia era cada membro do Clã transportar a Arca durante um pouco da sua Caminhada, oferecendo assim o seu esforço e a sua oração a todo o Núcleo.
Dos 60 que partimos para o Hike, apenas 26 subiram ao Monte Perdido. Desistir não era opção.
A dada altura encontrámo-nos com aquele que seria o nosso Guia na última parte do percurso. O José Luis. Homem de 71 anos e meio (conforme nos contou), era a sua 101ª subida ao Monte Perdido. E a sua genica fazia-nos corar de vergonha pelo nosso cansaço.
A dada altura, começámos a ver que o tempo estava a piorar. Não tenho a certeza se foi este "apenas" o motivo, mas após conferência com o José Luis, o HD disse-nos que não seria possível chegarmos ao cume do Monte. Ficariam a faltar os últimos 300m de altitude. Subiríamos até ao Lago Gelado - zona muito bonita já parte do maciço do MP e derradeiro local de paragem para quem fazia a subida final. Acontece que a neblina que se estava a levantar colocava um grande risco acrescido à subida, já de si bastante perigosa. Houve no grupo um sentimento de tristeza, mas também de um certo alívio. O cansaço era notório...
Subimos ao Lago Gelado, e ali descansámos. A vista é maravilhosa, como já vinha sendo hábito.
No cimo do Lago Gelado o José Luis fez uma pequena cerimónia para nós. Ajoelhados, armou cada um dos participantes Damas e Cavaleiros do Monte Perdido.
Fizémos ainda uma pequena cerimónia com a Arca da Aliança.
Foram momentos simples, simbólicos. Foram momentos de grande significado para mim, e acredito que para cada um dos participantes. Estar ali, a 3080m de altitude, poder comungar com os meus companheiros aquele espírito, aquele esforço, aquela paz que nos era transmitida pela magnificência do espaço que nos rodeava...
Levámos connosco nesta parte o ES.
Eu tinha querido levar uma foto em tamanho natural, mas veio-me depois uma ideia melhor. Em casa, escolhi criteriosamente a tshirt que iria vestir no primeiro dia. Escolhi uma tshirt branca com o logo dos scouts em vermelho, que comprei no tempo em que eu era do Clã (muitos anos portanto). Essa tshirt simbolizou o esforço que eu fiz no seu lugar, o suor que seria ele a verter... No dia da subida ao Monte Perdido, a tshirt foi comigo na mochila, na parte de fora da mochila. Com ela, eu e os 3 caminheiros do meu Clã que subiram, tirámos uma foto. De regresso a campo, escrevemos na tshirt: ES. O E esteve no Monte Perdido., e assinámos todos.
Iniciámos a descida, para mim a parte mais difícil de todas.
Chegados a Goriz, uma pequena dinâmica com os que tinham ficado.
Partimos em direcção à Colla de Cabalo.
O meu joelho esquerdo começou a dar de si, e descer era cada vez mais doloroso. Por isso não pude partilhar mais com o resto do grupo. Comigo caminhava nesta parte o PF, também com as suas mazelas.
A Colla de Cabalo é uma cascata gigantesca, cujo formato se assemelha à crina de um cavalo, daí o nome. Linda!
A parte final do percurso ainda nos reservava várias horas de caminhada. A descer, claro. O meu joelho doía cada vez mais, e comecei a andar literalmente a passo de caracol. A dada altura, estava para trás de todo o grupo, na companhia da doce F, do NL e do O. Dividiram entre si a minha mochila e fizeram-me companhia todo o resto do caminho. Chegámos ao autocarro já era noite escura, e parte do Clã já tinha arrancado para campo.
Quando cheguei, a F estava à minha espera, e chorava. Esteve sem me ver 2 dias, e estava triste por eu não ter aparecido no primeiro autocarro. Foi a única altura em que esteve tristinha nesta actividade.
Destes dois dias guardo coisas que não consigo colocar em palavras.
Por um lado, a quantidade de montanhistas que por ali andavam, a subir e a descer. A sua simpatia, o facto de nos falarem sempre, de cederem passagem ou agradecerem a que lhes dávamos.
A limpeza do Parque de Ordesa, onde apenas numa ocasião vi um papel no chão, já no regresso (e na zona mais visitada pelos turistas).
Do nosso grupo, o espírito de entreajuda, o espírito de união que se foi fortalecendo.
Os nossos Caminheiros são malta boa, gente com sede de aprender, de crescer, de ser mais.
Das paisagens, não consigo nem falar. Lindas, enormes, a perder de vista.
Do que eu trouxe de lá? Tanta coisa que não cabe aqui... e de que eu ainda não consigo falar sequer...
O que eu aprendi ao fazer este Hike? Além do que já falei... O facto de caminhar/escalar em altitude surpreendeu-me. Notei de facto alguma diferença na respiração. Por mais que enchesse o peito, parecia que o ar não chegava para as minhas necessidades. Os meus pulmões também se fizeram notar, e tossi bastante enquanto lá estive em cima (nos 2600/3080m). Mas genericamente adaptei-me bem e consegui superar estas dificuldades.
Os limites que ultrapassei em esforço, em medos, o tão pequenina me senti ali naquele espaço tão imenso.
Acima de tudo, enquanto lá estive - na subida, no refúgio, na derradeira subida e durante a descida, senti-me agradecida. Agradecida por existirem sítios como aqueles, agradecida por eu ter a oportunidade de ir a sítios como aqueles, agradecida por...
Nas fotos, eu, Dama do Monte Perdido.
*que não consegui fotografar...


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