Pois tinhamos ainda a Via Ferrata, outro desafio gigantesco para mim. Não sabia grande coisa sobre ela, à excepção de fotos que tinha visto do reconhecimento (e que me fizeram ficar assustadissima), e que era muito alta.
Na ida para o hike tinha abordado o HD sobre isso, mas pouco conseguimos aprofundar. Deu-me no entanto pistas que se revelaram valiosíssimas durante o meu percurso.
Uma vez mais, fiquei para os lugares do fim.
Durante o tempo que aguardei, fui observando o que os outros iam fazendo, e a breve parte do percurso que me era permitido ver, do ponto onde nos encontrávamos.
Não sei bem o que pensei naquela altura, mas lembro-me de ter raciocinado que, estando ali, tendo ido ao Monte Perdido, tendo passado por sítios perigosos e altos sem protecção, eu iria fazer a via ferrata nem que isso demorasse o resto do dia.
Iniciei a minha subida sozinha, pois dei tempo aos da frente, e atrás de mim seguia uma caminheira com tanto ou mais pânico que eu.
Fiz as primeiras duas partes relativamente bem, e fui experimentando as seguranças, a minha própria agilidade com os mosquetões, fui tentanto olhar para o chão que ficava cada vez mais longe.
A dada altura, quando a altura era já muito considerável e os apoios para pés e mãos pediam já alguma ginástica e posições menos "agarradas" à rocha, comecei a perder o controle sobre mim mesma. Sim, cheguei a uma altura em que perdi mesmo o controle. Deixei as primeiras lágrimas sairem e foi o caos.
Na altura havia lama sobre a rocha, e escorria água pela parede. As minhas lágrimas confundiam-se com a água, a lama turvava-me ainda mais a vista. Atrás de mim um precipício enorme e uma paisagem magnífica que eu não conseguia aproveitar.
Parei. Encostei a cara e todo o corpo à rocha e procurei racionalizar o meu pânico. Na minha cabeça começaram a ecoar as palavras que o HD me tinha dito 2 dias antes: se conseguires racionalizar o teu medo e se conseguires controlar o medo racional, reconheces que estás 100% segura, que não há forma de caires dali.
Parei, chorei convulsivamente, alto e bom som. Racionalizei e vizualizei o HD sentado a meu lado na camioneta a falar comigo e a explicar-me como vencer a Via Ferrata. Racionaliza.
Devagarinho, sempre encostada à rocha, espreitei lá para baixo. A altura é uma questão de hábito, disse-me o HD uma vez mais. Aos poucos, o corpo e a cabeça vão-se habituando à paisagem em altitude, e consegues vencer esse medo, habituas-te a ver-te em altitude.
Chorei, parei, olhei.
Mais à frente via a plataforma onde podíamos descansar, como me tinha dito o JM antes de iniciar a subida. (era também o início da pior parte da VF, segundo ele, mas isso agora não interessava nada) Lá estava o DN, que me observava. Só tive vontade de lá chegar para o abraçar...
Parada agarrada à rocha molhada, a água que escorria ajudou-me também a acalmar. Ainda com muito medo, mas já controlada, acalmei e segui o meu percurso.
Das partes seguintes, as que mais impressão me fizeram foi a gruta e a ponte himalaia. Estava completamente sozinha, e uma vez mais vieram-me as lágrimas aos olhos. Recordava o HD e recordava o tanto que eu já tinha conseguido ao chegar ali. Devagarinho, fui seguindo sempre em frente.
Pouco depois da ponte himalaia havia uma zona onde se podia descansar, e aguardei pela A. Vinha sorridente, "protegida" pelo JM. Seguimos juntos dali para a frente. As duas, tinhamos dado um passo gigantesco naquele dia.
A Via Ferrata foi para mim, enquanto descoberta e progresso pessoal, o ponto alto deste Acanuc. Superei um medo, um pânico que não acreditava ser capaz de superar. Superei-me.
Superei-me, cresci.
Cheguei ao fim de um obstáculo que não acreditava sequer ser capaz de começar.
Eu, fiz a Via Ferrata, e um dia vou voltar lá e vou aproveitar cada momento!!!
2 comentários:
Amiga, após as dificuldades de subir e vencer a dor, a felicidade de ser "Àguia" :))
:)))
E essa Felicidade ninguém nos tira!
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