Um novo Administrador na empresa e funções acrescidas para mim fizeram com que tivesse de estar numa reunião até perto das 20h00.
Em minha casa, o pai com os dois pimpolhos, mais a madrinha S., o A. e os seus dois filhotes. Das 4 crianças, a aniversariante era a mais velha. Quando cheguei, já tinham começado a jantar (era uma 5ª feira, e no dia seguinte quase todos se levantavam cedo, crianças incluidas.
O jantar correu bem. Fizemos fondue, refeição que geralmente agrada a miudos e graúdos, e que permite a todos irem conversando e comendo, sem dar muito trabalho.
A dada altura, estávamos a finalizar o jantar, a S. recebe um telefonema e sai da cozinha.
Não sei bem porquê, mas tive um pressentimento estranho quando ela regressou.
Pouco depois, chamou o Z. à parte, que regressou de cara alterada.
Começámos a levantar a mesa, para trocarmos os pratos e cantarmos os parabéns, mas não o chegámos a fazer.
O Z. chamou-me ao quarto, de voz grave e cara séria. Muito séria.
Lembro-me que ainda briguei com ele, não queria ir. Não fazia ideia do que se tratava, ou que parvoíce teria eu dito ou feito, mas não queria ir. Não queria saber o que raio o tinha posto naquele estado.
Mas ele insistiu, insistiu muito e cada vez mais sério, e eu subi com ele.
Ainda hoje me lembro da cara dele, a voz a tremer e os olhos raiados de lágrimas. Disse apenas:
"O teu pai..."
Já não cantámos os parabéns. Aliás, embora lembre como se fosse hoje os três dias seguintes a este, o resto daquela noite permanece em branco ainda. Tenho lembranças muito vagas da S. me vir abraçar, de me dizer que tinha entretido as crianças e que lhes tinha dado bolo, embora sem parabéns a você.
...
Por ter acontecido no dia do aniversário da minha filha, fui a última pessoa a saber da morte do meu pai. Já toda a minha familia lá estava em casa com a minha mãe, menos eu. Nesse sentido, e para que a F. não tivesse o seu dia estragado, eu sei que foi o melhor que podiam ter feito.
Mas o dia ficava assim marcado pela tristeza, pela dor. Ficou marcado. Marcado para sempre.
O ano seguinte foi um ano de sentimentos muito contraditórios.
Celebrávamos o 6º aniversário da F. e o 1º sobre a morte do meu pai.
Nesse ano contornámos a questão da festa, fazendo um lanche para os amigos da escolinha, ao final do dia (até era último ano na pré-escola e tudo).
A habitual festa familiar, para a qual os adultos não tinham nem cabeça para pensar porque a ninguém apetecia rir, cantar, brincar, foi contornada com a distância que nos separa da familia. Conversámos com a F., e sem lhe dizermos a verdadeira razão, pedimos-lhe se não se importava de fazer assim, um lanche com os amigos, e a festa da familia um mês depois, junta com a do mano, para "os primos não fazerem tantos km todos os meses". Ela gostou da ideia, e aceitou na boa, como sempre.
...
Claro que o dia é sempre complicado, não há que esconder.
A F. não sabe disto ainda.
Saberá a seu tempo, quando perguntar ou quando somar 2+2 e tirar as suas conclusões sobre as datas.
Quanto a mim... A dor não desapareceu, não desaparece nunca, mas vai tomando contornos mais suaves, mais de saudade. Aquela dor aguda que sentia nos primeiros anos transformou-se numa moinha, num sentimento que não vai embora, que não mata mas que moi como se costuma dizer.
Não fica mais fácil, nunca, mas aprendemos a viver com isso.
Eu aprendi no dia 26 de Janeiro a celebrar a vida em vez da morte.
Celebro todos os anos com redobrada alegria o aniversário da minha filha, como sei que o meu pai o celebra também, embora lá de cima.
"Ironicamente, estava um dia tão lindo..."
"Obrigado pela neve"
Em minha casa, o pai com os dois pimpolhos, mais a madrinha S., o A. e os seus dois filhotes. Das 4 crianças, a aniversariante era a mais velha. Quando cheguei, já tinham começado a jantar (era uma 5ª feira, e no dia seguinte quase todos se levantavam cedo, crianças incluidas.
O jantar correu bem. Fizemos fondue, refeição que geralmente agrada a miudos e graúdos, e que permite a todos irem conversando e comendo, sem dar muito trabalho.
A dada altura, estávamos a finalizar o jantar, a S. recebe um telefonema e sai da cozinha.
Não sei bem porquê, mas tive um pressentimento estranho quando ela regressou.
Pouco depois, chamou o Z. à parte, que regressou de cara alterada.
Começámos a levantar a mesa, para trocarmos os pratos e cantarmos os parabéns, mas não o chegámos a fazer.
O Z. chamou-me ao quarto, de voz grave e cara séria. Muito séria.
Lembro-me que ainda briguei com ele, não queria ir. Não fazia ideia do que se tratava, ou que parvoíce teria eu dito ou feito, mas não queria ir. Não queria saber o que raio o tinha posto naquele estado.
Mas ele insistiu, insistiu muito e cada vez mais sério, e eu subi com ele.
Ainda hoje me lembro da cara dele, a voz a tremer e os olhos raiados de lágrimas. Disse apenas:
"O teu pai..."
Já não cantámos os parabéns. Aliás, embora lembre como se fosse hoje os três dias seguintes a este, o resto daquela noite permanece em branco ainda. Tenho lembranças muito vagas da S. me vir abraçar, de me dizer que tinha entretido as crianças e que lhes tinha dado bolo, embora sem parabéns a você.
...
Por ter acontecido no dia do aniversário da minha filha, fui a última pessoa a saber da morte do meu pai. Já toda a minha familia lá estava em casa com a minha mãe, menos eu. Nesse sentido, e para que a F. não tivesse o seu dia estragado, eu sei que foi o melhor que podiam ter feito.
Mas o dia ficava assim marcado pela tristeza, pela dor. Ficou marcado. Marcado para sempre.
O ano seguinte foi um ano de sentimentos muito contraditórios.
Celebrávamos o 6º aniversário da F. e o 1º sobre a morte do meu pai.
Nesse ano contornámos a questão da festa, fazendo um lanche para os amigos da escolinha, ao final do dia (até era último ano na pré-escola e tudo).
A habitual festa familiar, para a qual os adultos não tinham nem cabeça para pensar porque a ninguém apetecia rir, cantar, brincar, foi contornada com a distância que nos separa da familia. Conversámos com a F., e sem lhe dizermos a verdadeira razão, pedimos-lhe se não se importava de fazer assim, um lanche com os amigos, e a festa da familia um mês depois, junta com a do mano, para "os primos não fazerem tantos km todos os meses". Ela gostou da ideia, e aceitou na boa, como sempre.
...
Claro que o dia é sempre complicado, não há que esconder.
A F. não sabe disto ainda.
Saberá a seu tempo, quando perguntar ou quando somar 2+2 e tirar as suas conclusões sobre as datas.
Quanto a mim... A dor não desapareceu, não desaparece nunca, mas vai tomando contornos mais suaves, mais de saudade. Aquela dor aguda que sentia nos primeiros anos transformou-se numa moinha, num sentimento que não vai embora, que não mata mas que moi como se costuma dizer.
Não fica mais fácil, nunca, mas aprendemos a viver com isso.
Eu aprendi no dia 26 de Janeiro a celebrar a vida em vez da morte.
Celebro todos os anos com redobrada alegria o aniversário da minha filha, como sei que o meu pai o celebra também, embora lá de cima.
"Ironicamente, estava um dia tão lindo..."
"Obrigado pela neve"
3 comentários:
Ola',
Sabes as minhas gemeas nasceram no dia em que morreu um irmao meu.
Nos' celebramos os anos delas 'a mesma.
Deus tirou-nos o Miguel mas enviou-nos a Matilda e a Madalena.
Ve o aniversario da tua filha e o nascimento dela de certa maneira como um presente do teu pai. Se ele nao tivesse vivido a tua filha nao podia ser viva e celebra a vida dele pelo aniversario dela.
Beijinhos,
Teresa
Olá Teresa,
Acredito no que dizes, e faço isso sim.
Mas não foi fácil, nem imediato, e ainda doi...
Beijinhos
S
Beijo *
Abraço apertado*
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