terça-feira, 27 de julho de 2010

Dia dos Avós

Ontem foi o Dia dos Avós.
Não me lembro de comemorar este dia, mas no ATL onde anda a F. lá se lembraram de convidar os avós para participar nas actividades, e a minha mãe foi (veio). Mas não é disso que quero falar, pois uma vez mais dava pano para mangas e para variar o dia (a noite...) não correu muito bem.

A minha Avó Júlia foi talvez a pessoa da familia mais marcante para mim.
Para mim, e acredito que para toda a familia mesmo. Toda.
Teve 4 filhas, e um filho que morreu com poucos meses. pouco ouvi falar dele, mas sei que existiu.
Cada uma das filhas casou e teve dois filhos. Somos portanto uma familia grande, se nos juntarmos todos.

Ora esta minha avó, oriunda do Ribatejo mas a residir em Lisboa aí desde uns 20 anos antes de eu nascer, criou ou ajudou a criar uma boa parte dos seus 8 netos. pelo menos 5 deles a tempo inteiro. "Escaparam" dois porque moravam a 50km, e escapou quase o meu irmão, porque é o mais novo de todos os primos, e nessa altura a minha mãe definitivamente já não trabalhava. Ainda assim, morávamos todos num fabuloso T2 pequenino e velhinho no centro de Lisboa, e por isso a bela da Juleca (como carinhosamente lhe chamávamos) acabava por dar as suas opiniões e por ajudar também.

Enquanto foi viva, a minha Avó era a verdadeira Matriarca da familia. Toda a gente lhe tinha um respeito fenomenal, e palavra dela era sagrada para todos. Isto incluia filhas, genros, netos, os conjujes dos netos, e mesmo os bisnetos (conforme fomos crescendo e constituindo familia).
Durante anos a fio, o dia 1 de Maio era dia de romaria para todos nós. E não por ser (mera coincidência) o dia do trabalhador. Onde quer que estivéssemos, todos sabíamos que tínhamos de nos deslocar para a casa onde a Avó estivesse, pois era o dia do seu aniversário, e durante muitos anos todos pensávamos "pode ser o seu último aniversário". Isto pode parecer um pouco cruel, mas o facto é que a minha avó faleceu aos 93 anos de idade, fruto de complicações decorrentes de uma cirurgia por causa de uma fractura no rádio, e nos ultimos 15 anos já tinha tido 6 AVCs. Sim, 6! E de todos recuperou, embora fosse perdendo algumas (poucas) faculdades entre eles. Fizémos de tudo anos a fio no 1 de Maio. pic-nics, almoços em casa de alguma filha, almoços no "bar" do cartaxo, jogatanas com raquetes, etc.

A Avó Julia ensinou todas as netas a fazer renda e crochet. Graças a ela, sei fazer renda, variadas coisas em crochet, e ainda aprendi a fazer frioleiras - uma coisa complicadíssima com um objecto pontiagudo - mas desse já não me peçam para demonstrar porque não me lembro mesmo com aquilo se usa. Para todas nós fez naperons, toalhas de mesa, colchas, e umas célebres mantas de lã, daquelas às risquinhas. Tenho pelo menos duas destas, e que quentinhas que elas são...

Depois de eu e os meus pais termos saído de Lisboa, ela quis permanecer (finalmente) na sua casa. Era uma pessoa de hábitos, e embora fosse com regularidade passar temporadas a casa das filhas, gostava de regressar ao seu cantinho, ir beber o seu carioca às pastelarias do costume, dar a sua voltinha pelo bairro, sentar-se no seu sofá verde a ver as "telesnovelas" e a gozar o seu merecido descanso. Era conhecida em todo o bairro e arredores, todos gostavam dela, e ela correspondia com simpatia.

Quando aos 18 anos terminei o 12º ano e regressei a Lisboa, fui morar com ela. Nunca me impôs horários nem regras. Mas sempre tinha uma tapioca quentinha para eu comer ao final do dia quando chegava do trabalho, teimava que não queria que eu fizesse a cama, e muitas vezes insistia que me queria fazer o jantar. A mim e à minha prima S., que também lá estava em casa, a estudar.
Belos anos esses, em que as 3 morámos juntas... Muitas maluquices a minha avó nos "aturou" a mim e à S., como na noite em que supostamente havia uma chuva de estrelas à meia noite, e ela esteve à janela connosco à espera para ver tal acontecimento.
Até que no seu último AVC, que eu felizmente "reconheci" a tempo de lhe prestar assistência, as filhas a conseguiram convencer que não podia mais permanecer sozinha em casa. Sozinha, porque eu trabalhava de dia e estudava à noite, por isso pouco tempo estava lá.
E foi aqui que tudo começou a descambar.
As filhas nunca se entenderam quanto a "quem ficar com a mãe". Muitas brigas, muitas discussões, muitas reuniões entre elas e respectivos maridos, mas o consenso nunca chegou. Consequência lógica para quem conhece a minha mãe, foi ela quem acabou por assumir essa responsabilidade, ainda que com algum (pouco, tenho de reconhecer) apoio das irmãs. Não censuro ninguém, pois nunca me quis meter nisso (nem os meus primos), mas reconheço que no meio de tudo aquilo, de todos os argumentos, todas tinham um pouquinho de razão e nenhuma tinha a razão toda.

A minha avó faleceu por volta das 6h da manhã do dia 14 de Julho de 2007, no hospital.
Eu tinha acabado de me deitar, vinda de uma despedida de solteira, quando a minha mãe me telefonou. Tomei banho, meti-me no carro e fui para lá.
O resto da familia só começou a chegar da parte da tarde.
A familia nunca mais foi a mesma desde então.

1 comentário:

Bernardo disse...

foi dia 15...