segunda-feira, 9 de junho de 2008

Recordações de infância

Fui recentemente “forçada” a recordar a minha infância. Se foi feliz, se brincava na rua, quem eram os meus amigos, o que fazia.
Dei por mim sem saber muito bem o que responder, pois tanto haveria para contar... Claro que foi uma infância feliz. Amigos? No centro de Lisboa, ou tínhamos amigos no mesmo prédio (ou eventualmente rua), ou não havia muito disso até se entrar na escola primária.

Tive a sorte de ter o M. no mesmo prédio que eu. Brincadeiras de miúdos, fins de semana no Casal, as mil e uma coisas que inventávamos juntos para passar o tempo.

Da minha infância o que recordo melhor são as idas diárias com a minha mãe à praça, com a sua cesta de palhinha. Passar no peixe, na fruta, nos legumes. O Ambiente daquele mercado tinha um cheiro muito especial. Ali vivia-se de tudo, comprava-se de tudo.
Passávamos pela Flamingo para espreitar os jornais, no Tebas para um café e para a minha mãe comprar a Tele-culinária ou uma lotaria, passávamos no sr. Mário (o sapateiro), e regressávamos a tempo de colocar na mesa o almoço, sempre às 12h30, pois o horário de bancário do meu pai não permitia atrasos. Depois de almoço, até a pasta já estava na escova de dentes à espera dele.

Recordo com muita saudade as férias dos meus primos. Nessa altura, a minha casa transformava-se numa espécie de colónia de férias. Anualmente, a juntar às tarefas diárias da minha mãe, havia as idas ao Castelo de São Jorge, ao Miradouro da Senhora do Monte, à Piscina de Vila Franca. Lembro-me do ar admirado das pessoas, ao verem-na desfilar com umas 6 crianças atrás, todas de idades muito semelhantes, e da célebre pergunta/brincadeira a propósito de um anúncio muito em voga na altura: “Terá casado aos 15?”. Quando éramos só as meninas, as “brigas” eram por causa da cama e do sofá. Tínhamos de tirar à sorte para ver quem ficava no sofá – era a parte mais divertida, pois dormiam ali sempre 2, e além disso poderiam ter o privilégio de ver tv um pouquinho até mais tarde.

Naquela casa que hoje parece minúscula (actualmente seria considerada um T2), cabiam nas festas de anos, baptizados e outras festividades, as cerca de 35/40 pessoas que compunham a família e amigos chegados. E não faltava espaço, ninguém se queixava. Cantávamos, brincávamos, fazíamos gravações no velhinho gravador de cassetes, que ainda guardo não sei bem onde. Havia gente por todas as divisões da casa, mas para nós o importante era mesmo estarmos juntos.

Na minha infância, entrei no Lisboa Ginásio Clube aos 3 anos de idade (passei por inúmeras modalidades entretanto), na escola primária, na catequese e na natação aos 6, e nos escuteiros aos 11. E nunca perdi um ano lectivo, nem faltei a nada para estudar…

Lembro-me de comprar “estalinhos” de carnaval e com o meu pai tentarmos assustar as pessoas que nos visitavam, lembro-me da visita mensal do senhor do Círculo de Leitores que, a partir do momento em que entrei para a escola primária, passou a ser uma visita de extrema importância, pois trazia sempre algum livro para mim.

Com o meu pai os passeios eram diferentes. Ensinou-me a ler os seus livros antigos – foi daí que herdei o gosto pelos clássicos, lia comigo e depois falávamos sobre eles. Anualmente tínhamos uma verba destinada a ser gasta na Feira do Livro, que percorríamos Parque Eduardo VII acima e abaixo. Anualmente íamos os 2 aos Santos Populares, calcorreando os bairros antigos e bailando onde havia um pezinho de dança.

A entrada na escola foi pacífica. Fiz os 4 primeiros anos na escola 26, segui depois para a Preparatória Nuno Gonçalves. Aí passei talvez os melhores anos da minha vida escolar. Amizades, as aulas de Educação Física e Trabalhos Manuais, o começar a ir e vir sozinha para casa, os feriados passados na belíssima biblioteca que a escola tinha. Já a passagem para a Secundária foi mais drástica. Embora a 2 minutos de casa, era um edifício velho, quase sem pátio, sem ginásio, e com um bar que pouco mais servia que uns papo-secos com salsichas quentes lá dentro banhadas em mostarda. Mas aqui foram também os tempos das primeiras revoluções escolares, com uma turma de “caloiros” do 7º ano a rebelar-se contra uma professora. Foram os tempos das primeiras baldas, das descobertas, das amizades “estranhas”, da fase do passa-não passa de ano.

a minha Escola nº26


As férias eram passadas em parques de campismo, no nosso atrelado. Primeiro as Azenhas do Mar (ai…), depois o Sobreiro (ai ai…). Depois de novo as Azenhas mas agora nos apartamentos da Alzirinha, com os seus gansos que me faziam correr de medo, gatos, galinhas e coelhos. O “Pão-por-Deus” que nos levava de porta em porta até á Praia das Maçãs. As idas aos caracóis, que o meu pai fazia divinalmente bem, os passeios pelas falésias Janas, a Praia da Maçãs, a Praia Grande. Depois veio a era Nazaré. As cantorias (com as minhas primas) em cima do poço, imitando as coreografias da Joia do Nilo, o café dos “quadradadinhos”, a boite aranha, o fulano todo jeitoso que nós galávamos à distância, o jogo do Quando o Telefone Toca já deitadas na cama. Os pic-nics na vinha do primo Zé Manel, os banhos no tanque, a fruta comida directamente das árvores, o leite bebido acabadinho de ser mugido, quente e gorduroso (blhaaaarg).

Eu, Miradouro das Azenhas do Mar, há uns 28 ou 29 anos


Os Natais, passados com toda esta família gigantesca, normalmente no Cartaxo. A hora das prendas e as brincadeiras que imploravam que essa hora chegasse mais cedo. Dormirmos todos em colchões no chão, rindo e brincando até cairmos de cansaço. Os cozinhados das minhas tias, as cusquices e as brigas que tinham, os doces na mesa, a lareira acesa, a primeira tv já com muitos canais (que na altura de nada serviam). As saudades que tenho destes Natais…

Foi isto, muito resumidamente, a minha infância.
Era uma infância assim alegre que gostava de dar aos meus filhos. Aos meus primos pequenos e grandes. Porque é que agora somos forçados a ter famílias tão pequenas?

2 comentários:

Anónimo disse...

Minha linda amiga,

Foi tão bom ler-te!... Estou maravilhada com a quantidade de Nomes de sítios que tu ainda te recordas... eu já não me recordo dos nomes dos cafés onde os meus pais me levavam, por exemplo...

Porque é que somos forçados a ter famílias tão pequenas?

É uma pergunta estranha essa, principalmente porque subentende que somos forçados a alguma coisa... Acho que temos tendencia a ir "com o rebanho", e a sociedade de hoje em dia é muito mais virada para bens materiais e para o seu próprio umbigo individual do que antigamente.

Mas não somos forçados a nada. A não ser que te estivesses a referir a não podermos ter mais que 1 ou dois filhos porque o dinheiro escasseia e a estabilidade é quase nula...

Sabes que mesmo por aqui, por vezes, ainda me vêm esse medo que o nosso país nos ensina a ter medo de o dinheiro não dar para se construir uma família, de ter medo que de repente a economia vire tudo de pernas para o ar, mesmo aqui onde a vida até corre muito bem...

E ao ler o teu texto vejo muito que esse medo me irá perseguir para qualquer lado que vá, enquanto continuarmos a tentar viver segundo uma vida mais material que humana! Enquanto teimarmos em nos esquecermos a velha frase de que "onde comem 2 comem 3".

Um grande beijinho minha linda. Deixaste-me com saudades do tempo em que a minha família também era assim.

Abraço apertado.

S disse...

E não escrevi nem metade daqueles que recordo... foi uma boa infância sim. Posso gabar-me muito disso!
Quanto à frase do "onde comem 2 comem 3", infelizmente isso é cada vez menos verdade. Aliás, na comida é verdade sim... mas nos infantários, no material escolar, na faculdade... aí já não é tão fácil.
Aliás, espreita por exemplo este meu post, já antiguito:
http://blogue-meu.blogspot.com/2005/06/taxas-de-natalidade-i.html

BJSSSSSSS