Chegada à Drave.
A noite anterior foi de compras, reajustar os sacos individuais de comida, arrumar no jipe. Deitei-me no sofá, enroscada no saco cama, e já nem dei pelo A. fazer a mochila dele. De manhã acordei ainda antes do despertador tocar.
A partida da Gare do Oriente foi algo atribulada. Atrazos, compras de ultima hora. O primeiro contacto com o pessoal foi bom, mas senti-me ali caída de pára-quedas, com todos a conhecerem-se e eu ali no meio.

Chegámos ao cimo do caminho que desce para a aldeia pelas 14h30. Começar a descer foi realmente o início.
É indescritível. A beleza, a magnitude, o isolamento que nos enche a alma.
Houve alguma confusão na organização do staff permanente, e o espaço de acampamento que tinhamos reservado estava ocupado. Há demasiada gente em campo, e tivémos de separar as Comunidades. Eu e o A. ficámos com 2 delas, com as tendas literalmente coladas umas às outras, e aos outros Clãs que já lá estavam acampados. É muita gente e muita confusão, e isso deixou-me um pouquito desanimada, porque esperava mais silêncio, mais sossego.

Optámos por fazer as coisas comuns (cozinhar, comer, guardar material) junto das outras Comunidades, pois há mais espaço.
Mas Drave impõe esse sossego por si mesma. São 20h00, e só agora consegui "fugir" um bocadinho para estar sozinha. Passei o dia todo de um lado para o outro, em arrumações, materiais, o trabalho de campo, sobe escada, desce escada. Mas isto cansou-me apenas fisicamente. Por dentro sinto-me cheia. Cheia de estar aqui, cheia de estar de novo no meu meio, no meu modo de vida.
A falta de comunicações está a afectar-me muito menos do que esperava. Apenas um aspecto se torna um pouquinho difícil de contornar: desde esta manhã que não falo com os meus pimpolhos, e saber que eles não me podem ligar incomoda-me um pouco.
De resto, voltei às origens. Tenho a tenda montada num espacinho inclinado. O barulho da ribeira, de onde bebo a água directamente (e não trouxe os kits de análise...), sempre fresca, é incesssante e tranquilizador. Adoro o barulho da água a correr...
A ribeira é cristalina, pura.

Os pássaros cantam e voam por entre as árvores.
O dia esteve excelente, e ainda estou de mangas curtas, sentada num sucalco sobre o vale.
Ainda não consegui ir à Casa do Silêncio... Amanhã...
Estou na Drave.
Estou bem comigo, e sei que vou aqui reencontrar-me com Deus.
Estou em casa!
...
O Pe. Rui, Assistente Nacional, veio connosco. Parece muito acessível, e é super-simpático. Amanhã haverá confissões. Espero ter coragem para isso.

A actividade da noite foi uma reflexão, sobre uma leitura difícil para mim, que me tocou profundamente. Recordei as opções. Recordei o afastamento.
(...)
Encontro-me de novo de vara bifurcada na mão, perante as opções da vida. Sinto que nem sempre tenho feito as opções mais correctas ultimamente.
(...)
Estamos numa das casas da Drave recuperadas pelo CNE, onde apesar de a maioria das pessoas se ter ido já embora, se ouvem ainda cânticos. Sinto-me bem aqui. Sinto-me em paz. Acho que vou mesmo fazer a Reconciliação ainda esta noite. Sinto essa necessidade e essa vontade.
Sinto-me cheia d'Ele.
Quero sair da Drave e continuar.
Sem comentários:
Enviar um comentário