Pampilhosa da Serra ardeu.
Qualquer incêndio me aflige, mas este, pelas suas gigantescas proporções e pelo sítio, afligiu-me em particular. Daí que só esteja a escrever sobre isso hoje, uns dias (poucos) depois.
Escrevo "com teclas", mas sem Delete, sem Backspace, só com aquilo que me vai no coração.
Foi há 15 anos que lá passei 15 dias acampada, junto à Barragem de Santa Luzia, apenas ao atravessar da estrada de alcatrão.
Era um acampamento de Agrupamento, e nós - Exploradores Séniores - tínhamos ido uma semana antes para fazer as montagens gerais e capinar o mato para os mais pequenos.
Tomávamos banho na barragem todos os dias à tardinha, para refrescar que o calor era muito e sabia bem depois de um dia a trabalhar no campo.
Para as lavagens tínhamos o apoio de um motor emprestado pelos Bombeiros para puxar a água da barragem para os balneários que construímos, para não deitar a água com sabão na barragem.
Não sei bem ao certo quantos dias depois de lá termos chegado, deflagra um incêndio a vários km de distância, mas que à noite parecia estar mesmo ali. Era numa montanha "ao lado", e aumentou a proporção a uma velocidade vertiginosa. Que não tivéssemos medo, disseram os Bombeiros, o fogo estava longe e não chegaria ali. Estávamos seguros.
O fogo realmente não chegou ali, mas chegou a outros lados, aumentou muito, durou dias a fio, e os mais velhos (os Chefes) foram ajudar os Bombeiros no auxílio às populações.
O Carlos G, então Dirigente, que apanhou em flagrante um suposto incendiário, que o entregou à polícia (foi custoso não o deixarem bater-lhe, soubemos disso mais tarde), que o soltou de seguida...
O motor que bombava a água esteve ligado dias inteiros, 24/24h, para encher os autotanques, e éramos nós que fazíamos isso. Ao menos ajudávamos como podíamos. Fazíamos turnos para haver sempre 2 ou 3 de nós lá. Demos-lhes o nosso leite para ajudar a alimentar e a não deixar desidratar aqueles corpos cansados, demos--lhes sandes e fruta, demos o que podíamos.
Não esquecerei nunca aquelas caras exaustas mas sem desistir, sem deixar de voltar uma e outra e outra vez para abasrtecer. Dias inteiros sem irem a casa, sem se deitarem, sem comer algo substancial, sem comer algo sequer.
Foi finalmente extinto, não me lembro quanto tempo durou.
Retomámos as nosssas actividades, entre as quais estava un Raid que passava por localidades que tinham estado em perigo. É incrível a força daquelas pessoas. Rostos cobertos de rugas, marcas de uma vida no campo, pessoas que viram os seus lares, os seus animais, as suas culturas em perigo. Mas ali estavam, assim tiveram ainda um sorriso para nos receber, para nos contar a história da sua terra, para dizer que ali ficariam sempre, mesmo que o perigo voltasse, pois ali era o seu lugar.
Toda a zona onde estive, grande parte dos locais que percorri, tudo isso ardeu. Tudo isso é agora uma mancha cinzenta, gigantesca.
Chorei ao ver essas imagens na SIC.
Não consegui ver mais.
Já não consigo ver mais, doi muito. Sei que é uma atitude egoísta, mas neste momento não aguento ver mais.
Tenho o coração apertado e também ele em chamas, ou já cinzento sei lá
4 comentários:
Também eu.:(
E eu... Desta reiterada - e criminosa - inoperância!
Verbo Jurídico Blog
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SÁBADO, AGOSTO 13, 2005
"Incêndios e impunidade
Segundo dados oficiais, dados a conhecer no Público (ver link), as autoridades detectaram na última década perto de 50 mil crimes de incêndio nas florestas portuguesas, mas apenas um por cento dos casos chegaram a julgamento e destes só metade resultou em condenação.
Todavia, de acordo com novos números divulgados pelo Ministério da Justiça (ver link), desde 1999 até 2005 foram condenadas e estão a cumprir pena de prisão efectiva 71 pessoas. Entre 2000 e Maio de 2005 foram libertados das prisões portuguesas cerca de 150 indivíduos que acabaram de cumprir a pena de prisão a que tinham sido condenados.
A pena mais grave de que há notícia neste tipo de crime, divulgada pelos órgãos de comunicação social, foi a aplicada a um incendiário da Sertã, em Junho de 2004. O homem foi condenado a 12 anos de prisão por ter sido considerado culpado dos graves incêndios que destruíram, no Verão de 2003, centenas de hectares de floresta na Sertã, Vila do Rei e Mação.
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O criminalista Barra da Costa numa tentativa de explicação deste fenómeno referencia que:
1) Da prova. O próprio fogo destrói muitas vezes as provas. Os métodos utilizados pelos incendiários dificultam também a descoberta de provas e dos autores dos crimes, chegando mesmo a ser utilizados animais como tochas para atear o fogo.
2) Da prisão efectiva. A não aplicação da prisão efectiva em muitos casos, é encarada pelo criminalista como resultado da máxima adoptada desde há alguns anos pela justiça: "só em último recurso é que se prende alguém", atendendo sempre em primeiro lugar à reintegração dos autores de crimes na sociedade. Mas não só. Segundo o mesmo, "as pessoas não estão a ser presas porque não há mais lugares nas cadeias portuguesas"...
3) Da prisão preventiva. A alguns dos arguidos é aplicada a medida de coacção mais grave, a prisão preventiva, enquanto decorre o inquérito judicial, acabando depois por ser absolvidos (por falta de prova produzida em audiência) ou condenados a penas que não a cadeia. Barra da Costa considera que esta medida é algumas vezes utilizada para "sossegar as populações".
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A maioria das pessoas desconhece que a prova produzida durante o inquérito, incluindo os próprios depoimentos não vale nada no processo se não for produzida de novo na audiência de julgamento.
Uma exigência processual da lei penal, desfazada da realidade social, excessivamente garantística e favorecendo a impunidade. É por isso que tantas vezes pessoas que são detidas preventivamente (porque havia indícios claros e suficientes durante o inquérito) são depois absolvidas - não propriamente por estarem inocentes da prática do crime, mas porque a prova que foi obtida durante o inquérito não é produzida em audiência de julgamento.
Enquanto os políticos que desconhecem o que é um Tribunal e como são tramitados os processos com as leis por eles criadas continuarem a formar grupos para comissões de legislação compostos por pessoas que têm muita teoria mas pouco ou nada sabem em termos práticos, o sistema judicial vai continuar a ser o bode expiatório de uma culpa que não tem.
Para quando a alteração do processo penal, por forma a cessar com uma impunidade legisticamente promovida, reformando aquilo que verdadeiramente é essencial e não aquilo que é acessório e que apenas serve para fazer bons títulos de jornais ?".
Inserido por Joel Timoteo R Pereira @ 18:04
Terra queimada,
cheiro acre e cinzas,
espalhada em surdina
invade nossas casas,
deixam-nos impotentes...
almas tristes,
apavoradas... que sina!
Trovão seco e constante,
desce a ladeira
em luzes exuberantes.
depressa alcança a eira
deixa-nos ofegantes,
trôpegos e inertes,
apetece gritar,
grito seco de raiva,
clarão que parece dia,
tão lindo e tão triste,
porque nos deixa a agonia!
Para quando o descanso e a calma da minha cama, longe deste inferno,
que fiz para sofrer assim?
se sempre eu, fui terno,
amigo, trabalhando sem fim.
não posso continuar,
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