A primeira recordação que tenho de mim mesma, nem sei quantos anos tinha, mas eram poucos de certeza. Estava na cama de grades, no quarto dos meus pais, a atirar os brinquedos para fora da cama. Não me lembro de mais nada, nem sequer de quem os estaria a apanhar, decerto não muito contente com a situação. J
Lembro-me de ter “nascido” e crescido sempre no mesmo bairro, o MEU bairro, bem no centro de Lisboa.
Todos os dias ia com a minha mãe à praça. Íamos sempre à mesma senhora comprar o peixe, pois ali era sempre fresquinho, à mesma banca comprar a fruta, a outra banca, mas também quase sempre a mesma, comprar batatas e outros legumes.
Perto da praça havia uma mercearia “das finas”, onde se comprava bolachas e bolinhos secos a granel, para as festas. Uns anos mais tarde, era lá que a minha avó gostava de comprar a tapioca… huuuuum que bem que ela fazia tapioca!
No regresso passávamos na leitaria Ucal para comprar o leite do dia, na mercearia para comprar fiambre ou aquelas fabulosas alheiras de Mirandela (as verdadeiras). Lembro-me de passar na drogaria do senhor Luís, só para lhe dizer bom dia. De passar na oficina do senhor Mário, o sapateiro, que até há poucos anos ainda lá resistia, continuando um ofício já tão raro nos dias que correm. Na mesma rua havia uma papelaria, a Flamingo, onde a minha mãe comprava pequenas lembranças para a família, ou livrinhos para os meus primos, os kalkitos (lembram-se dos kalkitos???) para mim, nos dias de “festa”, mais tarde comprava também algum material escolar.
A meio da minha rua, no cruzamento, havia (e ainda lá está) uma padaria. Por vezes a minha mãe deixava-me ir lá buscar o pão sozinha… que orgulhosa eu ficava por ser incumbida de uma tarefa tão importante! O pão era embrulhado em papel, daquele absorvente que depois se guardava numa gaveta, para absorver o óleo quando fritávamos batatas. Outras vezes levava um saco, de pano.
Do outro lado ficava uma loja de meias, lãs e outras utilidades. Era lá que a minha mãe e a minha avó mandavam remendar as meias de vidro. Sim, porque naqueles tempos as meias eram caras, e havia quem as sabia recuperar na perfeição… agora vão simplesmente para o lixo!
O nosso carro, um Peugeot 104 azul – de um azul que já não se usa, estava sempre estacionado na nossa rua, pois havia imensos lugares. Quando saíamos de carro, os meus pais iam meter gasolina à garagem mesmo ali pertinho, que ficava dentro de um prédio – coisa impossível de imaginar nos dias de hoje!!! Esse carro foi comprado no ano em que eu nasci. Durou 18 aninhos! Muito chorei eu por o ver partir sem nunca ter tido oportunidade de o conduzir…
Morei 15 + 5 anos naquele bairro… ainda hoje, sempre que vou a Lisboa, lá passo para matar saudades!
(15 mais 5 não significa necessariamente que foi até aos 20 anos… mas essa história fica para depois)
4 comentários:
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a mercearia das finas ainda existe, não sei se com os mesmos donos; a praça teve obras à algum tempo e está muito diferente, mais limpa e com 1 supermercado (que já fechou) ao lado; a leitaria não tenho a certeza; o senhor Luís ainda lá anda; o senhor Mário, o sapateiro das horas também está no mesmo sitio; a papelaria não era fernandes? também já fechou; de resto não sei...
...mas vi (e costumo vê-lo por lá) um 104 branco nas olaias!
Não, a papelaria era mesmo a Flamingo...
A leitaria não existe, nem mesmo tu chegaste a conhecê-la como tal.
lembro-me de 1 sitio onde se comprava leite na rua do forno do tijolo no quarteirão da loja de móveis que fica numa esquina...
Eu tb me lembro da leitaria na forno do tijolo.... Sim sim... eu tb morei pra esses lados! =p Só que não me recordo de muitas coisas... lembro da leitaria, duma loja de plantas, de ir ao café Atenas fazer furinhos p ganhar chocolates e do oculista pq aos 5anos usei os oculos e fui la comprar umas aramações super pirosas mas que eu adorava =X
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