Eu, a iniciar uma reunião, em Lisboa. Toca o telefone e era de casa.
F - "Mãe, o A. hoje partiu um prato na escola, e trouxe o recado que amanhã tem de levar um para substituir. Leva um daqueles azuis? É que vai ser diferente dos de lá..."
Eu - "Oi?? Não leva prato nenhum. Amanhã eu falo com a professora e resolvo o assunto"
Cena 2 (a minha chegada a casa e primeira reação)
Chego a casa, já toda a minha gente a dormir. Em cima da mesa da cozinha, estava isto:
Sim, é um saco de plástico com os cacos do prato partido.
Juro que me belisquei a mim própria para confirmar se estava a ver bem...
Cena 3 (o que se passou, e quem foram os intervenientes)
De manhã não havia tempo, à noite chamo os dois e esclareço o que aconteceu.
Resumindo: Junto à entrada da escola existe uma mesa (ali mesmo coladinha à porta de saída/entrada dos alunos - onde eles colocam lancheiras, livros, mochilas, casacos, e tudo o que calha a crianças de 1º ciclo de escolaridade). Nessa mesa estava um saco com pratos. O meu A e outro colega estavam na brincadeira, o A atirou uma lancheira, errou o alvo, a lancheira bate no saco, este cai e parte-se um prato.
Realço que isto ocorreu às 17h30, hora de saída dos cerca de 100 alunos do 1º ciclo (6-10 anos).
Cena 4 (como os adultos da escola resolveram o caso)
A Auxiliar presente diz ao aluno (A, meu filho e educando) que no dia seguinte terá de trazer um prato substituto. Apanha os cacos e coloca num saco de plástico. No meio da confusão chega nem mais nem menos do que a Adjunta da Direção do Agrupamento de Escolas aqui da terrinha. Reforça a indicação de que o prato terá de ser substituído. Quando a F (minha filha e educanda, 13 anos de idade acabadinhos de fazer) chega para ir buscar o irmão, a dita Adjunta da Direção do Agrupamento de Escolas informa-a do que se passou (13 anos, contra uns 30 e tal), e entrega-lhe o saco de plástico com os cacos, para que o levasse para casa.
Assim, sem mais, um saco de plástico com os cacos que acima se vêem, para que duas crianças de 8 e 13 anos trouxessem, a pé, num trajeto de cerca de 1km, até casa*.
Cena 5 (eu, atónita, a olhar para o saco e a ouvir a descrição dos factos)
"F, tens a certeza que foi a prof. Graça (a tal Adjunta da Direção do Agrupamento) que te deu o saco? Mas tens MESMO?"
"Tenho mãe, claro que sim. Estava lá a S (a Auxiliar), mas foi a Graça que deu e disse que tínhamos de levar um novo" (corroborado pelo A)
Primeira reação (depois de conseguir fechar a boca com o espanto do que tinha acabado de ouvir)
Telefonar à Professora Titular da turma do A. Que não sabia de nada, primeiro riu-se com o espanto igual ao meu, e que imediatamente se calou quando eu lhe disse quem é que tinha feito aquilo (escuso de repetir que foi a Adjunta ...).
"Obviamente que tem toda a razão em reclamar, isso não se faz, é um perigo enviar um saco de plástico com cacos, principalmente a uma criança, e que sabe que vai para casa a pé, sujeita a cortar-se pelo caminho".
Segunda reação
Telefonar a duas amigas a contar tudo isto, para que me ajudassem a reforçar a ideia de que de facto não sou eu que estou louca e isto é uma coisa que não cabe na cabeça de nenhuma pessoa normal - check. Claro que após a risada inicial das duas (sim, porque isto contado é difícil de acreditar à primeira), me deram razão.
Terceira reação
Ir confirmar a propriedade do prato em causa (para cabrão, cabrão e meio, já dizia a minha avó - peço desculpa pelo palavreado).
E confere.
É que, sendo uma escola de 1º ciclo, o refeitório é da responsabilidade da Câmara Municipal. Logo, todo o equipamento é da Câmara Municipal. Logo, não é à escola que terei de devolver o prato. Mas, obviamente, não é o valor do prato que está em questão, até porque o mesmo partiu-se em consequência de uma atitude incorreta por parte do meu filho (e que já levou o responso respetivo).
O que está em causa são todas as circunstâncias em que isto aconteceu.
1º - O que fazia um prato de porcelana, em cima de uma mesa, num local por onde passam dezenas de crianças em correria e brincadeira? É suposto estar ali? Não me parece...
2º - Se o aluno partiu algo, não deverá o Encarregado de Educação (eu) ser informado diretamente do sucedido, por escrito ou por telefone? (um e-mail, recado na caderneta, o que fosse)
3º - Qual é o objetivo pedagógico da atitude da adulta (docente, com responsabilidades em contexto escolar, e responsabilidades ao nível do próprio Agrupamento, e portanto com a obrigação de ter discernimento para agir de forma educativa e responsável), em tomar tal atitude para com uma criança de 8 anos?
Quarta reação
Solicitar reunião com a Diretora do Agrupamento, a quem entregarei o saco com os cacos e reclamação escrita com descrição do acontecido, solicitando os devidos esclarecimentos.
Acabei de receber confirmação, e esta tarde irei lá.
Agora mais a sério...
Isto é normal?
A minha vida dava um filme...
* Pormenor eventualmente não relevante, mas que não deixa de o ser: a dita Adjunta da Direção é nem mais nem menos que a minha vizinha do lado... significando isto que nos conhece bem, sabe onde moramos, sabe o que a criança tem de andar entre a escola e casa, e sabe que o faz a pé.



