quarta-feira, 24 de abril de 2013

11 anos sem pisar ovos

26 de janeiro de 2002.
A F fazia 1 ano, e seguindo as indicações da Pediatra, estava na altura de introduzir a clara de ovo cozida.
Pouco tempo depois do jantar, descobrimos da pior forma que tinha ocorrido uma alergia - a cara, as orelhas, o pescoço e as mãos tinham duplicado de tamanho e estavam disformes.
Sempre tive sangue frio nestas ocasiões, e o raciocínio imediatamente me levou a associar ao novo alimento. Um telefonema e uma rápida ida à farmácia resolveram o assunto.
Iniciamos a partir daí uma odisseia que não sabíamos na altura vir a ser tão prolongada.
Ao longo do tempo, dois episódios de choque anafilático (sem consequências de longo prazo, felizmente), consultas e testes regulares de Imuno-alergologia, um imenso rol de alimentos proibidos.
Essencialmente, ela não podia de forma alguma ingerir Ovo, Frutos Secos, Amendoim, Sementes diversas.

Foram anos de preocupações; de idas ao supermercado para fazer listas de ingredientes e de alimentos e marcas proibidas e permitidas; foram receitas inventadas e alteradas; encomendas internacionais de substitutos de ovo que permitissem cozinhar coisas "mais normais"; bolos de aniversário "normais" que eram feitos com muito carinho a centenas de km de distância; familiares, amigos, vizinhos e pais de colegas da escola que faziam sempre algo especial para que ela pudesse comer nas respetivas festas; foi o apoio incansável no(s) colégios onde andou; foram as brigas nas escolas; foram as seringas de Anapen que felizmente nunca utilizámos; foram os escuteiros com ementas alternativas; foram as inúmeras pessoas que conheci na blogosfera e que deram receitas, partilharam anseios, dicas e truques; foram as inúmeras vezes que ela chorava por não poder comer o mesmo que os outros; foi o ter aprendido, com UM ano de idade, a perguntar a qualquer pessoa que lhe oferecesse algo para comer: "isso tem ovo? se tem não posso comer", e repetir essa questão incansavelmente, vários milhões de vezes; foi o Dia de S Martinho passado nas urgências do hospital depois de um choque anafilático severo, a cantar e a brincar ao spider man; foi tanta, mas tanta coisa ao longo destes 4.097 dias de privação total deste alimento...

Após os resultados do RAST, chegou o grande dia.
Às 9h30 estávamos pontual e ansiosamente na Cuf, munidas da mousse de chocolate feita com 2 ovos crus.
Testes cutâneos ok.
Observação ok.
De uma forma quase sádica (para nós, obviamente), a primeira colher de café de mousse foi ingerida com expectativa. Tudo correu bem, e a dose foi aumentando.
Às 15h00 teve "alta". Com distinção.
Caiu-me a ficha nessa altura... e a Dra. Susana quase teve de me dar um calmante a mim, tal era a sensação de alívio, felicidade e quebra da adrenalina que tinha sentido ao longo de todo o dia.
O Ovo pode, a partir de hoje, passar a ser inserido na sua alimentação como na de qualquer outra pessoa.
Uma vez que continua a apresentar um IGE muito alto, continua com alguma prevenção, mas pode ingerir sem receios de algo grave.

OBRIGADA a todos os que connosco partilharam estes 11 anos.
A todos os que ajudaram a prevenir, a procurar alternativas. 
A todos os que connosco dela cuidaram com tanto amor e carinho. 
A todos os que leram ingredientes vezes e vezes sem conta.
A todos os que sempre me apoiaram, aturaram as minhas crises existenciais e fases de desalento.
Valeu a pena!

Testes cutâneos

Sai mais uma colherada de mousse

Jantar comemorativo.
"O que queres comer? Ovos estrelados..."

NOTAs:
1. Continua estritamente proibida de comer frutos secos, amendoim, castanhas, pistacios, e sementes de qualquer espécie - a Anapen continua a ser necessária e essencial na sua vida.
2. Se há coisas/doenças piores? Infelizmente há. Mas felizmente a nós calhou-nos "apenas" esta.

1 comentário:

HD disse...

Mt fixe! :)