Estava numa farmácia, à espera da minha vez.
De repente ouvem-se gritos, pessoas a correr. Inicialmente, e ao ver o "tipo" da maioria das pessoas que corriam, por uma questão de etnia (...) pensei que tivesse havido um assalto (muitos deles era ciganos). Poucos segundos depois percebo que não. Tinha havido um atropelamento.
O meu instinto inicial foi semelhante ao de todas as pessoas presentes - as que passavam na rua, as que comigo estavam na farmácia, mesmo os familiares da vítima - virar a cabeça para não ver. Do sítio onde estava podia ver que alguém estava debaixo da viatura, mas nada mais. A cena aparentava o pior. A mãe da criança (descobri depois) gritava sem se mexer. Todas as pessoas que assistiam gritavam, comentavam, mas ninguém fazia nada.
Nada.
Afligi-me com o que poderia ter acontecido e com o estado em que a criança aparentava estar. O meu primeiro instinto foi, confesso, virar a cabeça de horror. Peguei no telemóvel que tinha na mão e liguei o 112. À minha volta toda a gente gritava, chorava, mas ninguém se chegava ao carro nem à criança.
Até que um dos farmacêuticos sai detrás do balcão e dirige-se à viatura. A falar com o INEM, fui atrás dele sem pensar, e ainda arrastei litaralmente comigo um jovem que estava ao meu lado.
Os três conseguimos tirar o menino de 4 anos debaixo da viatura, praticamente ileso, que chorava convulsivamente. Visível, apenas um grande hematoma na cabeça.
Só nessa altura a mãe se aproximou e tomou a criança nos braços.
Informei o 112 do estado da vítima, acalmei a mãe, deixei-lhe as instruções básicas até à chegada da ambulância, e retomei a minha vez na espera na farmácia.
Tudo isto se passou num espaço de 10/12 minutos.
Não sei o que teria acontecido àquele menino se o farmacêutico não tivesse tomado a iniciativa de lá ir. Havia umas 20 pessoas ou mais a assistir, e nenhum deles sequer se aproximou para ajudar. Nenhum pegou no telemóvel para chamar a ambulância, nenhum ajudou a remover a criança, nenhum dos familiares agradeceu ao farmacêutico que tomou a iniciativa.
Acabou em bem, felizmente.
Mas a inércia e a cobardia daquelas pessoas, onde eu inicialmente me incluí, assustaram-me imenso.
1 comentário:
sempre alerta para servir:)
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